Na aldeia Sateré-Mawé, a 150 quilômetros de Manaus, um grupo de jovens se reúne toda semana em torno de um laptop e de um drone dobrado numa mochila. Eles são os "guardiões digitais" do território — uma iniciativa que combina conhecimento ancestral com tecnologia contemporânea para proteger as terras de seu povo.

O projeto nasceu em 2022, a partir de uma parceria entre a Federação das Organizações Indígenas do Rio Negro (Foirn) e uma ONG de tecnologia cívica. A ideia era simples: treinar jovens indígenas para usar ferramentas de mapeamento e monitoramento que permitissem documentar o território e registrar invasões de forma autônoma, sem depender de órgãos governamentais que muitas vezes demoram a responder.

"A gente sabe onde é nosso território. Mas precisamos provar isso para o mundo de fora, e o mundo de fora entende de mapa, de foto, de dado", explica Mauro Sateré, 24 anos, um dos coordenadores do grupo.

Com drones, os jovens fazem sobrevoos regulares para identificar alterações na vegetação — sinal de possível desmatamento ou invasão. Com aplicativos de GPS, registram pontos de referência e documentam os limites do território. Os dados são armazenados em nuvem e compartilhados com organizações parceiras e com o Ministério Público Federal.

O projeto já identificou três casos de invasão que foram encaminhados às autoridades. Em dois deles, a documentação produzida pelos jovens foi usada como prova em processos judiciais.

"A tecnologia não substitui a luta política. Mas ela nos dá ferramentas que antes não tínhamos", diz Mauro.